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CRÍTICA | Enola Holmes

Dirigido por Harry Bradbeer (Fleabag, Killing Eve) e roteirizado por Jack Thorne (Extraordinário), o filme que conta com o protagonismo da irmã mais nova do famoso detetive Sherlock Holmes finalmente estreou na Netflix no dia 23/09.


Antes de seu lançamento, muito já se falava a respeito do longa em razão de uma disputa judicial envolvendo os direitos autorais da adaptação da série de livros “Os Mistérios de Enola Holmes” de Nancy Springer que, por sua vez, é baseada no personagem e universo ficcional criado por Sir Arthur Conan Doyle na década de 1880. Basicamente, os herdeiros de Conan Doyle alegaram que o filme seria baseado nas últimas obras do autor, que ainda não estão em domínio público (ao contrário das primeiras, que entraram em domínio público em 2014).


A aguardada obra, como o próprio nome diz, gira em torno de Enola Holmes (Millie Bobby Brown), irmã mais nova do famoso detetive Sherlock (Henry Cavill) e do rígido funcionário público Mycroft (Sam Claflin). Enola, cujo nome é um anagrama para a palavra “alone” (“sozinha” em inglês), foi criada apenas pela mãe Eudoria (Helena Bonham Carter) em uma casa na zona rural da Inglaterra. As duas sempre foram muito unidas até que, no dia de seu aniversário de 16 anos, sua mãe desaparece, deixando apenas um presente para a filha.


Sem saber o que fazer, Enola chama seus irmãos, que há anos não vê, para ajudarem. Porém, Mycroft está mais interessado em mandá-la para um internato para “jovens moças”, questão pela qual Sherlock não demonstra o menor interesse, o que culmina na fuga de Enola em busca de sua mãe, seguindo as pistas deixadas por ela. Ruma à Londres, o caminho da jovem cruza com o Marquês Tewksbury (Louis Partridge), um jovem nobre que está sendo perseguido por um assassino, envolvendo Enola também nesse mistério.


A independência e emancipação feminina dos costumes rígidos e poucos direitos para as mulheres da época é um dos temas centrais do filme, e isso reflete diretamente na criação dada a Enola por sua mãe. Eudoria, no desempenho de suas funções também como tutora da garota, educada em casa, a criou para se tornar uma jovem capaz, extremamente inteligente e independente. E assim, em uma constante quebra da quarta parede, acompanhamos a aventura da forte e peculiar protagonista por Londres de uma forma leve e divertida. 


Um ponto que merece atenção é o elenco. Dentre os vários nomes de peso mencionados anteriormente, Claflin realmente se destacou, desempenhando brilhantemente o papel do que vem a ser o antagonista de Enola. 


Vale mencionar, ainda, que o roteiro dinâmico em conjunto com o tom atual e leve faz o espectador esquecer das pouco mais de duas horas de duração do filme. A reivindicação dos direitos das mulheres da época é traduzida de modo que estabelece uma relação atual com as mesmas pautas ainda nos dias de hoje. Thorne consegue, através de seus personagens, demonstrar o discurso machista por meio de uma figura caricata e, por vezes, desprezível como Mycroft, enquanto retrata o discurso pelo direito das mulheres sob o ponto de vista de figuras fortes e independentes como Enola e Eudoria.


A fotografia e direção de arte também colaboram para a leveza do filme, uma vez que as cores claras e vibrantes e diversas locações abertas tiram o peso da tela típicos de filmes de época de Sherlock Holmes, mas ainda mantendo todos os elementos deste mesmo gênero ambientado na Inglaterra do século XIX, a exemplo do figurino, que acaba sendo o foco em diversos momentos. Enola faz uso de suas roupas conforme lhe convém para a situação, por exemplo disfarçando-se diversas vezes com roupas tipicamente consideradas masculinas, mas também com vestidos extravagantes ou até mesmo de viúva para passar despercebida. Aqui, as roupas possuem um lugar dentro do próprio discurso machista da época, e a contradição é muito bem explorada especialmente na cena da loja na qual a personagem adquire um espartilho.


Apesar de não ser um filme inovador, o conjunto de todos elementos o torna divertido e um ótimo passa tempo. Além disso, o carisma de Millie Bobby Brown no papel da protagonista é o suficiente para convencer qualquer pessoa a passar mais de duas horas na frente da televisão.


Enola Holmes já está disponível na Netflix, não deixe de conferir!


 


Por Ana Clara P.S.M.O.


 

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