Instituto de Cinema de SP

Uma lista de excelentes documentários brasileiros que estão disponíveis no Youtube

O cinema nasceu do documentário, quando a primeira câmera registrou “A Chegada do Trem na Estação”, dos irmãos Lumiére. É esse gênero que lança a sétima arte para o mundo. Depois desse registro dos franceses as produções documentais só cresceram. Na década de 20 temos “Nanook”, do diretor estadunidense Robert Flaherty, considerado o primeiro longa-metragem do gênero no mundo. Porém, é com o russo Dziga Vertov, em “O Homem com a Câmera na Mão”, que o documentário ganhou uma narrativa experimental, onde os realizadores têm a liberdade para inovar. 


No Brasil a produção de documentários começou no final do século 19 com Affonso Segretto, um imigrante italiano, que filmou sua chegada ao Rio de Janeiro, após uma viagem de navio. O filme foi intitulado “A Vista da Baía de Guanabara”. Em 1917, o Major Thomaz Reis, responsável pela produção cinematográfica da Comissão Rondon, lançou o documentário etnográfico: “Rituais e Festas Borôro”, que narra os costumes da tribo indígena bororo.


No ano de 1936, foi criado o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), idealizado por Edgar Roquete-Pinto, onde foram produzidos centenas de documentários, a maioria dirigida por Humberto Mauro. A partir dos anos 60, o gênero se popularizou no país e a crítica social passou a ser um elemento presente na narrativa das produções. Bons exemplos são “Aruanda” Linduarte Noronha, “Arraial do Cabo” de Paulo Saraceni e o semi-documentário Rio 40º de Nelson Pereira dos Santos, obra que inspirou o surgimento do Cinema Novo.


Hoje o Brasil não é apenas um dos países que mais produzem documentários no mundo, é também considerado uma das melhores escolas de cinema documental, devido a sua narrativa rica, experimentações e por ser a terra natal de um dos mestres do documentário: Eduardo Coutinho, estudado em universidades dentro e fora do país. Por esses motivos, listamos alguns excelentes documentários brasileiros que você pode assistir no Youtube. Confira:


Uma lista de excelentes documentários brasileiros que estão disponíveis no Youtube


O Poeta e o Castelo (de Joaquim Pedro de Andrade, 1959)


Um registro singelo, poético e tocante do cotidiano solitário do poeta Manuel Bandeira. O curta-metragem documental acompanha a rotina de Bandeira dentro do seu pequeno apartamento, localizado no centro do Rio de Janeiro. O poeta recita seus versos, podemos observar o contraste entre sua fama e seu modesto lar, ainda há o telefone que toca e o faz sair de sua reclusão. Uma das cenas mais bonitas do filme é o passeio matinal de Bandeira pelas ruas do Rio, onde imagem e trilha sonora completam um casamento perfeito. Uma curiosidade: o assistente de direção dessa produção foi o cineasta Domingo de Oliveira morto em março de 2019.                                                                                                            


Aruanda, (de Linduarte Noronha, 1960)


Um registro da vida dentro do quilombo Olho d’Água no Brasil dos anos 60. O local fica na Serra do Talhado, em Santana do Sabugi, no estado da Paraíba, lá diversas famílias vivem em condições precárias e lutam por sua sobrevivência. O quilombo vive isolado do resto do país e as autoridades pouco ligam para o local e seus moradores.   


Viramundo, (de Geraldo Sarno, 1965)


Um documentário que retrata a chegada dos migrantes nordestinos em São Paulo, um relato forte e intenso sobre a migração e como a riqueza do sul do país atraia as pessoas da região nordeste, que vinham em busca de oportunidades melhores de vida. Mas, com decorrer do tempo percebiam que eram iludidas por promessas falsas e ainda sofriam inúmeros preconceitos. O filme foi realizado pela Caravana Farkas, e a trilha sonora da obra é de José Carlos Capinan.       


O País de São Saruê (de Vladimir Carvalho, 1971)


Documentário finalizado em 1971, mas liberado pela ditadura apenas em 1979, por causa da censura. O título foi inspirado em um cordel de Manoel Camilo dos Santos. O País do Saruê é um filme denso, potente que retrata a relação do homem e a terra na região sertaneja do Rio do Peixe (região de muita seca que abrange os estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará). As imagens realistas e as dificuldades de sobrevivência no sertão chamam a tensão na tela e provocam reflexões.                                         


Nem Tudo é Verdade (de Rogério Sganzerla, 1986)


Um relato fictício da passagem real de Orson Welles pelo Brasil, onde ele deveria realizar um filme cultural chamado "It\'s All True"(É Tudo Verdade), para apresentar uma imagem positiva do povo brasileiro e da grandiosidade do país ao governo dos Estados Unidos, um projeto que fazia parte política de boa vizinhança. Porém, Welles ficou encantado com tudo ao seu redor e se distraiu do projeto, que nunca foi totalmente finalizado. Este filme mostra o realmente motivo porque Welles  não conseguiu concluir o trabalho.                                                                                                                                 


ABC da Greve (de Leon Hirzman, 1990)


O filme acompanha a trajetória de 150 mil metalúrgicos na região do ABC que estão lutando por melhores condições de trabalho, salários e vida. Sem obterem êxito em suas reivindicações, o grupo decide entrar em greve, desafiando os patrões e sobretudo a ditadura militar. O filme retrata a invasão do sindicato pela polícia e a forte repressão aos trabalhadores que chegaram a se refugiar em uma igreja. Foram 45 dias de greves, até que patrões e empregados chegaram a um acordo. Porém, o movimento sindical nunca mais foi o mesmo.                                                                                                                                  Link: 


O Velho - A História de Luiz Carlos Prestes (de Toni Venturi, 1997)


O documentário apresenta ao público a trajetória de Luís Carlos Preste, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foi uma figura marcante do período republicano brasileiro, esteve presente no ambiente político do país de 1920 a 1990. O Velho como era conhecido desafiou Getúlio Vargas, foi casado com Olga Benário, viu a esposa ser enviada para um campo de concentração, onde foi morta. Prestes, também não hesitou em apoiar seu inimigo Vargas, quando entendeu que naquele momento ele era a melhor opção para o país. Já no fim da vida sobe ao palanque para apoiar o movimento das Diretas Já. Destaque para a sútil narração do ator Paulo José.                                                                                                            


Notícias de uma Guerra Particular (de Kátia Lund e João Moreira Salles, 1999)


O documentário é baseado em entrevistas de personagens envolvidos na rotina do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O filme expõe falas de criminosos, policiais e moradores do morro Dona Marta, comunidade localizada em Botafogo, zona sul carioca. A obra conta com a participação do capitão Rodrigo Pimentel, que anos depois seria a inspiração para um dos personagens mais controversos do cinema nacional “O Capitão Nascimento”, interpretado por Wagner Moura no longa-metragem “Tropa de Elite” de José Padilha. Nos relatos dos entrevistados podemos ver como a sociedade tenta lidar com a violência.                                      


Um Passaporte Húngaro (de Sandra Kogut, 2001)


Um pedido de passaporte é o guia para cineasta Sandra Kogut questionar o que é uma nacionalidade, para que serve um passaporte, e o que herdamos com ele. Ela parte da busca da história de sua família, dividida entre dois mundos e dois exílios: aqueles que imigraram para o Brasil, por causa da Segunda Guerra na década de 40 e os que não puderam sair da Hungria.                                                                                                                                     


O Crítico (de Kléber Mendonça Filho, 2008)


Com mais 70 entrevistas entre críticos e cineastas do Brasil e do exterior, o filme discute o cinema a partir dos conflitos entre artistas, observadores, criadores e críticos. Os nomes entrevistados são Eduardo Coutinho, Walter Salles, Gus Van Sant, Fernando Meirelles, João Moreira Salles, Richard Linklater, Cláudio Assis, Costa Gavras e Nelson Pereira dos Santos. A ideia surgiu a partir do questionamento pessoal de Kleber Mendonça Filho, enquanto crítico profissional, de como se posicionar na indústria cultural sendo também um cineasta.                                                                                                                 


O Mercado de Notícias (de Jorge Furtado, 2014)


Abordando temas como mídia e democracia o documentário intercala depoimentos de 13 jornalistas brasileiros com trechos da peça “The Staple of News”, do dramaturgo inglês Ben Jonson, encenada pela primeira vez em 1626, em Londres. Os Jornalistas discutem o papel da mídia e sua influência na democracia. O diretor da obra é Jorge Furtado conhecido por ter dirigido o aclamado documentário “Ilha das Flores”, uma referência do gênero.                                                                                         


Eduardo Coutinho um capítulo à parte


É impossível fazer uma lista de melhores documentários nacionais sem incluir Eduardo Coutinho, o diretor morto em 2014 foi uma referência do gênero sendo estudado no mundo inteiro por sua forma única e empática de entrevistar. Por isso selecionamos cinco documentários do cineasta disponíveis no Youtube para você curtir juntos com as obras acima. Confira:


Cabra Marcado para Morrer (1984)


O documentário começou a ser produzido em 1964, inicialmente, iria retratar a história do líder da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, João Pedro Teixeira, assassinado em 1962. No entanto, com o golpe militar, no dia 31 de março, a locação no engenho da Galiléia foi cercada, e as filmagens interrompidas. Após 17 anos, Coutinho retornou à região e reencontrou a viúva de João Pedro, Elisabeth Teixeira – que estava vivendo na clandestinidade, e tantos outros camponeses que participaram das gravações. Essa obra deu projeção nacional à Eduardo Coutinho.                                                                                      


Santo Forte (1999)


Uma investigação do cotidiano de católicos, umbandista e evangélicos de vivem na favela carioca da Vila Parque da Cidade. O documentário penetra na intimidade dos praticantes de cada religião e faz uma abordagem muito pessoal da fé de cada um.                                                                                                                                   


Edifício Master (2002)


O filme registra o cotidiano dos moradores do Edifício Master, em Copacabana, e apresenta um rico painel de histórias. Com 276 apartamentos e 12 andares, o local serve de moradia aos entrevistados, que revelam dramas, solidões, desejos e vaidades. O documentarista mergulhou tão fundo na história dos moradores do prédio que junto com sua equipe ele alugou um apartamento no prédio e, durante sete dias, filmaram a vida de seus moradores. 


Jogo de Cena (2007)


Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram suas histórias de vida em um estúdio. Em junho de 2006, 23 delas foram selecionadas para participar do projeto. Elas foram entrevistadas no Teatro Glauce Rocha, centro do Rio de Janeiro. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, as histórias contadas pelas personagens escolhidas. O “Jogo de Cena” é descobrir a verdade, propondo ao telespectador uma reflexão sobre o que é real e o que é ficção.                                                                                                                            


Um dia na Vida (2010)


Quinta-feira, dia 1º de outubro de 2009. Eduardo Coutinho passa 19 horas gravando ininterruptamente o que é exibido em todos os canais de televisão aberta do Brasil. Do material, faz um resumo de uma hora e meia do que os telespectadores recebem diariamente. Nas imagens temos cenas do seriado Chaves, do qual Coutinho era fã, intercalando com intervenções dos apresentadores Wagner Montes e José Luís Datena algo bem engraçado. O filme jamais foi lançado comercialmente, porque seu conteúdo inclui imagens de obras cujos direitos não foram liberados.                                                                                                                   


 


 

voltar