Instituto de Cinema de SP

Amanda Sayeg, diretora do documentário “Blind Dreams”, conta como foi seu processo de criação e produção

O documentário “Blind Dreams”, em português “Sonhos Cegos”, aborda o difícil tema de como pessoas com deficiências visuais, seja desde o nascimento ou que perderam a visão ao longo da vida, sonham. Produzido pela paulistana Amanda Sayeg, diretora e produtora que hoje reside em Los Angeles, o produto final penetra em um universo que poucas pessoas conhecem.


 


A ideia do documentário surgiu inicialmente em uma aula sobre o gênero: “Eu não estava conseguindo encontrar um tema, não sabia muito bem o que eu queria fazer. Então um amigo meu me perguntou se eu já tinha parado pra pensar como eram os sonhos de alguém que não enxerga”. Em sua reflexão sobre como nossos sonhos são muito visuais, Amanda se aproximou, se identificou e se apaixonou ainda mais pelo tema.


 


Depois da escolha do tema foi necessário encontrar pessoas que quisessem fazer parte do projeto e que ela pudesse entrevistar. Foi entrando em contato com instituições e com escolas que trabalham com pessoas com deficiência visual que Amanda encontrou seus personagens.


 


“Foi minha primeira experiência fazendo documentário e fazendo uma entrevista, então antes de gravar com a primeira pessoa eu fiquei um pouco em pânico, com medo de fazer alguma pergunta errada e machucar alguém. Mas isso foi passando ao longo das entrevistas. Fui ficando mais confortável”, diz a diretora.


 


A troca entre ela e os entrevistados foi uma das partes mais especiais e marcantes da produção, “Ter as pessoas ali na minha frente, falando sobre a vida delas, sobre a história delas, sobre os sonhos delas, foi me deixando mais segura”.


 


Não passar todos os mínimos detalhes para os entrevistados foi usado como um instrumento pela diretora, de maneira positiva, para conseguir registrar as emoções mais realistas possíveis dos personagens. “Então muitas vezes era a primeira vez que aquelas pessoas estavam refletindo sobre aquilo, isso fez com que as reações ficassem muito naturais, gerando uma troca mais intensa”, conta.


 


Formada em Arquitetura e Urbanismo, a paixão pelo audiovisual surgiu depois que Amanda realizou um curso de teatro. Assim que mudou para Los Angeles, ela começou a estudar Cinema e logo começou a trabalhar em set, produzindo clipes, comerciais e curtas. Essa experiência foi muito importante para a consolidação do documentário “Blind Dreams”.


 


Houve uma pausa relativamente grande entre a produção e a finalização do documentário, o que contribuiu, já que os trabalhos que ela fez nesse período, também ajudaram ela a ter uma visão mais ampla e clara  do que queria como produto final.


 


“Quando você trabalha com documentário, é muito comum que você tenha na verdade dois filmes diferentes. Você tem uma visão no começo do processo, na pré-produção, e uma ideia no que você quer que aquele filme se transforme, por mais que você se prepare para as entrevistas, você não tem como prever muitas das coisas que vão acontecer”, conta Amanda sobre o processo, completando: “Seu produto final fica muito diferente do idealizado no início. E eu acho que essa é a beleza do documentário, ele ser feito de uma maneira muito orgânica”.     


 


O preto nas entrevistas foi escolhido não só pelo contraste com o entrevistado, mas também para manter uma uniformidade e aprofundar ainda mais o tema do documentário. Amanda conta que é difícil traduzir visualmente esse conteúdo, já que sonhos são muito abstratos e pessoais e ainda por cima com o recorte das pessoas deficiência visual, fica ainda mais difícil.


 


“Qualquer imagem que eu utilizasse, seria muito fácil eu assumir que eu sei como aqueles sonhos são, ou que eu sei como eles deveriam ser e eu não queria, absolutamente, cruzar essa linha. Eu queria ser justa àquilo que aquelas pessoas estavam me contando”, diz.


 


Manter o tema como grande estrela do documentário era essencial, e ela não queria ofuscar isso com alguma outra imagem, que poderia tirar o foco do espectador. Este foi um dos pontos mais desafiadores do processo.


 


Amanda conta que o próximo passo é produzir uma versão longa desse projeto, já que o tema pode ser muito mais explorado, principalmente por conta do que esses sonhos significam social e psicologicamente para quem perdeu a visão.

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