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CRÍTICA | A Vida Invisível: retrato doloroso inspirado na vida de milhões de mulheres

A Vida Invisível é o novo filme de Karim Aïnouz, que é responsável pela direção de longas como Madame Satã (2002) e Praia do Futuro (2014). Sua mais recente obra ganhou a mostra Um Certo Olhar em Cannes neste ano, e hoje está na corrida para alcançar um dos principais prêmios do cinema: o Oscar. A árdua campanha parece ir cada vez melhor, e a participação de um filme brasileiro em uma das categorias da premiação após anos, cada vez mais próxima. 


Falar sobre os prêmios e reconhecimentos alcançados é sempre importante, como insisto em dizer. Em um ano onde o cinema nacional sangrou, assistir a filmes com grande produção e alcance é um alívio para o peito. Bem, A Vida Invisível é mais um desses casos. O longa que busca uma estatueta na categoria de melhor filme estrangeiro é, no mínimo, necessário. 


O roteiro é adaptado do livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, e leva para as telas uma história cheia de drama e realidade. Apesar de se passar no Rio de Janeiro da década de 50, muito do que assistimos é fácil de enxergar na sociedade moderna. Aliás, muito do que se enaltece no filme é sua capacidade de retratar uma realidade que parece se espalhar não só pelo Brasil, como em outros países. A de mulheres com vozes e vontades silenciadas. 


A premissa entrega a história de duas irmãs extremamente próximas que se veem separadas pelos dramas da vida, e já prometia retratar essa vivência da mulher em uma sociedade declaradamente machista. Com a direção sensível e competente de Karim, combinada a todos os outros setores, como o próprio roteiro, a assistência de Nina Kopko e toda a pesquisa de Suzane Jardim - que fez uma grande busca histórica para que até os mínimos detalhes do filme fossem o mais verossímeis possível, tornou a história das personagens tocante e capaz de causar em quem assiste - e aqui falo sobretudo sobre as mulheres - uma identificação muito grande, mesmo que as situações sejam em menor intensidade. 


A relação patriarcal é trazida de forma clara por meio de diálogos e situações que mostram as mulheres como objeto de posse dos homens a quem devem responder ou agradar. Isso fica muito bem colocado em cenas com relações sexuais. Chega a ser doloroso assistir, já que toda a equipe de arte, fotografia, som e direção, trabalhou muito bem a atmosfera criada para cada uma das situações. É possível sentir a dor e desesperança das personagens. 


Aliás, o que dizer da atuação das protagonistas? Carol Duarte (Eurídice Gusmão) e Julia Stockler (Guida Gusmão) apresentam performances notáveis e dignas de elogios. As atrizes tiveram uma preparação intensa e imergem na história, cada uma em sua personagem, entregando para o enredo duas mulheres fortes que atravessam anos em vidas que não imaginaram para si. É por meio delas que acompanhamos o tema central: invisibilidade. E não só por elas, mas também pela personagem da mãe, que é silenciada dentro da própria casa pela figura de um pai e marido autoritário. Algo que sabermos ser mais natural do que deveria. Outra presença a ser enaltecida é a de Fernanda Montenegro, que apesar de não muito tempo de tela em sua participação especial, mostra mais uma vez a atriz magnífica que é.


Em questões técnicas, como arte, fotografia e som, o filme também mostra muita qualidade. A cena inicial apresenta um desenho de som muito competente e já nos insere de maneira poderosa à produção. A ambientação do Rio de Janeiro dos anos 50, desde as roupas até ruas, carros e hospitais, também é destaque do longa. 


Em resumo, A Vida Invisível é mais um dos sucessos de nosso cinema nacional. Ainda hoje foi indicado a melhor filme internacional no Spirit Awards, que é considerado o Oscar das produções independentes. 


Chegou a hora de valorizar o cinema brasileiro mais uma vez. O filme chegou hoje aos cinemas! Vá até uma sala e se emocione com uma produção poderosa e gigante. E pra dar um gostinho, deixamos o trailer logo abaixo. 


Por Mariana R. Marques

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