Instituto de Cinema de SP

CRÍTICA | A Voz Suprema do Blues

Com a participação de Chadwick Boseman, A Voz Suprema do Blues (ou “Ma Rainey’s Black Bottom”) estreou na Netflix neste fim de semana. O último filme gravado pelo ator antes de seu falecimento em  agosto, é uma adaptação da peça homônima de 1984 escrita por August Wilson, e traz a persona de Ma Rainey - lendária cantora de blues norte-americana interpretada por Viola Davis -, para retratar a exploração da cultura negra em uma indústria musical racista, misógina e branca.


Situada no fim da década de 1920, a história revolve em torno de um trágico dia de gravação em um estúdio na cidade de Chicago. Apesar de ter preservado alguns elementos do teatro, como a redução no número de cenários, e principalmente o foco da atenção concentrado nas atuações do elenco, a adaptação deixa a desejar quando, por vezes, o roteiro não se sustenta, com cenas exaustivas, diálogos repetitivos e monólogos que não atingem seu potencial, nem acompanham as performances dos atores.


Sendo essas, por sua vez, o ponto alto da produção, o trabalho de Viola Davis com Chadwick Boseman, acompanhados por Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts, merece os mais sinceros elogios. O astro de Pantera Negra impressiona com uma despedida emocionante do cinema, sendo capaz de guiar seu personagem, o ambicioso trompetista Levee, por grandes momentos de tensões e emoções, demonstrando a grandeza de seu talento, dá uma amplitude emocional ao papel que choca, com mudanças abruptas de humor, mas que nunca se parecem forçadas.


Viola, como já é de se esperar, oferece um verdadeiro show ao dar vida a “Mãe do Blues”, tanto sua performance quanto a caracterização da personagem estão impecáveis, e em momento algum questionamos a autoridade de sua presença, ou a força atribuída àquela mulher. Apesar disso, a forma como o roteiro se constitui causa algumas inconsistências na personagem, sobretudo no tocante ao seu relacionamento com os dois jovens que a acompanham, e falas que acabam colocando em sua boca ameaças que soam vazias em seu contexto.


A respeito das pautas sociais abordadas pelo filme, se por um lado produzir hoje um filme que se mantenha alheio aos questionamentos anti-racistas e feministas seria anacrônico e descontextualizado, fazê-lo de forma pouco profunda também é discutível. Não há dúvidas de que a Indústria Cultural (principalmente à época em que se passa o longa-metragem) é machista e preconceituosa, e apenas expô-la como tal não causa o impacto que aparenta ter sido pretendido. A sensação proporcionada é a de que a obra desejava abarcar diversos assuntos, mas não lhes deu a devida profundidade, concentrando as críticas apenas nas longas falas do elenco.


Tecnicamente, à exceção da montagem que se perde no ritmo e torna algumas cenas cansativas, o filme é bem sucedido apesar de não se destacar. O trabalho de fotografia e arte são adequadamente executados, porém não capturam o olhar do espectador de forma admirada, e assim como os outros componentes do filme, acabam sendo apenas um pano de fundo para as performances dos atores.


Dessa forma, A Voz Suprema do Blues infelizmente não atinge as expectativas esperadas, mas guarda um belo registro do trabalho de um ator que, mesmo em pouco tempo, deixou uma marca definitiva na história do cinema. Assim como confirma a potência de uma das maiores atrizes da atualidade, e homenageia o talento de gerações de artistas negros, apagados e explorados por uma indústria (e sociedade) discriminatória.


 


Por Isabella Thebas.

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