Instituto de Cinema de SP

CRÍTICA | Bacurau

Lançado no fim do ano passado, Bacurau ainda vem dando muito o que falar. Nas últimas semanas, foi eleito o melhor filme estrangeiro pelo New York Film Critics Circle, associação de críticos de cinema nova-iorquinos, e também foi incluído por Barack Obama em sua lista de filmes e séries favoritos de 2020. Confira aqui a crítica da nossa colaboradora Isabella Thebas, realizada à época do lançamento do longa!


Daqui a alguns anos, num Brasil distópico e assustadoramente próximo - com direito a execuções em praça pública e cabeças a prêmio - se desenrola a trama de Bacurau. O filme, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, retrata uma pequena cidade fictícia no sertão nordestino que lida com alguns dilemas antigos, como a escassez de água e o descaso do governo, e outros nem tanto. Sob o ataque de invasores quase alienígenas (mas na verdade apenas brancos extremistas), que têm o intuito de literalmente tirar a cidade do mapa, os moradores de Bacurau se veem - novamente - na necessidade de lutar por sua sobrevivência.


O povo de Bacurau é o protagonista da trama, ao passo que os personagens individuais, mesmo contando com atuações poderosas como a de Sônia Braga e Udo Kier, acabam sendo ofuscados para que a comunidade se sobressaia. O filme se aproveita para fazer uma reflexão a respeito da representatividade do povo nordestino, alguns personagens tratando-se evidentemente da atualização de certos arquétipos do imaginário brasileiro, como o cangaceiro não-binário Lunga, o ex-matador Acácio e o político corrupto Tony Junior.


Trata-se de uma comunidade solidária, horizontal e unida - como é apresentada desde o princípio da história - que aprendeu a utilizar-se da invisibilidade que lhe foi atribuída e a transformá-la em força e estratégia, como pode ser visto na cena da visita do prefeito e nos momentos que antecedem o desfecho da trama. De forma muito clara, a obra coloca o Nordeste, e principalmente o Sertão, em um lugar de resistência a um Estado que consegue ser omisso na mesma medida que é opressor.


 


O filme então se utiliza desse Nordeste futurista para tratar das relações de poder estabelecidas historicamente entre a metrópole e a colônia, propondo uma revolução simbólica dos brasileiros contra o colonizador. Que, para tal, se voltam às suas raízes de resistência: o cangaço. Com diversos simbolismos que unem passado, presente e futuro, em Bacurau o Brasil do futuro repete o Brasil do passado. Com uma história nacional regida a sangue, é a resistência do passado que sustenta a resistência do futuro. E, nesse contexto, a violência é apresentada como a única saída, a única resposta possível à opressão.


No que diz respeito à representação dessa relação de poder, fica clara a desigualdade entre as partes exprimida nas super avançadas tecnologias que possuem os invasores. À medida que os moradores reagem apenas com sua história (mais especificamente com o conteúdo do Museu Histórico de Bacurau), demonstrando a importância da memória e o peso do passado para esse povo e para a construção de sua identidade. Entretanto, quando se dá o embate propriamente dito, nota-se a escolha dos diretores quanto a exibição da violência: compensa-se o lado dos nativos fazendo com que suas mortes nunca sejam tão gráficas como a dos invasores, visivelmente alternando a decupagem de acordo com quem sofre a violência e quem a causa, enaltecendo a resiliência do povo de Bacurau. Enquanto que, ao fim do filme, os antagonistas e suas mortes chegam a causar risos no público.


A oposição entre os invasores e aqueles que se defendem é expressa por diversas formas: a língua que falam, o estilo de atuação, o ambiente em que se encontram e a fotografia que os retrata. Na relação entre eles, o filme inverte a lógica imperialista e racista do cinema dominante ao colocar um povo sertanejo na posição de se defender dos cruéis vilões (brancos) que acabam por serem aniquilados sem qualquer arrependimento.


Em relação a sua forma, Bacurau recusa-se a especificar um único gênero. Montando um híbrido de western, ficção científica e distopia, se constitui como um filme de gênero que afirma, em primeiro lugar, sua origem brasileira. Trabalha a sua descolonização ao subverter características do cinema de massa, utilizando-se livremente de recursos estilísticos diversos - como transições a la Star Wars e alguns zoom in forçados - e buscando suas raízes na experiência nacional, principalmente no Cinema Novo e Glauber Rocha. Um cinema de resistência que se utiliza do filme de indústria para alcançar seu impacto.


Dessa forma, o filme, de quase 2 horas e 15 minutos, passa por transformações no seu decorrer, demarcando visivelmente três partes (assim como em outros filmes de Kleber Mendonça Filho). O primeiro ato é dedicado a um realismo social que contextualiza a cidade e apresenta os personagens que a compõem, um momento contemplativo e de longos planos que demora a apresentar seu conflito principal. Quando é revelado o núcleo de antagonistas, o filme torna-se quase um filme B americano, alterando os personagens, a língua, o ritmo e os atores. Em suas sequências finais, estabelece-se o enfrentamento entre os americanos e os brasileiros, de um lado, um sniper distante, do outro, a lógica do Sertão, de um lado, o cinema de gênero, do outro, a raiz da identidade - e resistência - do cinema brasileiro.


A obra cinematográfica, portanto, utiliza como enredo uma história bem específica e distópica sobre o apagamento de um povo, para ir na contramão do discurso de que o Brasil é um país sem memória, e assim fazer uma reverência à memória coletiva. Uma homenagem que se inicia na celebração do velório popularesco e musical da matriarca negra do vilarejo, passa pelo coronelismo e deságua inevitavelmente no imaginário do cangaço. Uma história de opressão, união e resistência.


 


Por Isabella Thebas.

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