Instituto de Cinema de SP

CRÍTICA | Branco Sai, Preto Fica

Branco Sai, Preto Fica é um filme de 2014 que conta com a direção e roteiro de Adirley Queirós (Era uma Vez Brasília), e cujo principal tema é a descarada violência policial movida pelo racismo. A frase “sem provas não há passado”, fala de uma das personagens, resume bem o tom e tema da obra, nada mais, nada menos do que uma grande, clara e muito bem construída crítica social.


O longa conta a história de dois homens negros que faziam parte de um grupo de dança na juventude e costumavam frequentar um baile de black music em Brasília nos anos 1980. Acompanhamos o dia a dia dos personagens de Marquim da Tropa e Shockito enquanto relembram a noite em que policiais invadiram o baile e os feriram gravemente aos tiros. O próprio título do longa metragem é uma referência à ordem dada pelos policiais no momento da invasão, literalmente dividindo a população que estava no local a partir do preconceito. Em meio a lembranças num estilo documental, há ainda o plot do personagem vivido por Dilmar Durães, um viajante vindo do futuro cuja missão é investigar o crime ocorrido naquela noite e provar a culpa do Estado Brasileiro. 


Os primeiro 30 minutos colocam o espectador em um lugar de passividade, tentando descobrir o que aconteceu tantos anos atrás e a relação entre os três personagens principais que narram suas histórias. O filme mescla gêneros de forma orgânica, além do personagem que viaja no tempo para conseguir provas sobre a injustiça policial cometida naquela noite do baile, a ficção científica aparece de forma sutil, presente em alguns fatores de som e cenografia, e também em elementos narrativos como a necessidade de um passaporte para entrar na cidade de Brasília e a construção de uma aparato semelhante a um foguete que forma uma bomba cultural para destruir Brasília.


Um fato interessante é que o filme se passa na cidade natal do próprio diretor, Ceilândia, uma cidade do Distrito Federal e que também já foi ambientação de outras de suas produções, como Rap, o canto da Ceilândia e A cidade é uma só?. Considerando a realidade de Ceilândia que, assim como outras cidades satélites são negligenciadas pelo poder público e carecem de investimento em setores básicos, é possível interpretar o passaporte para Brasília presente no filme como outra crítica social, no sentido de que apenas determinadas pessoas privilegiadas têm acesso à capital e toda sua qualidade de vida e tecnologia.


O diferencial do filme está também em seu formato, que mistura a ficção científica com documentário. A originalidade da obra foi reconhecida ao ser indicada ao Grande Prêmio Brasileiro na categoria de Melhor Roteiro Original, além de ter ganhado a Mostra Competitiva da 47ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em diversas categorias, inclusive a de Melhor Filme, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator para Marquim da Tropa. O longa, ainda, recebeu o Prêmio Saruê do Correio Braziliense.


Em suma, Branco Sai, Preto Fica é uma história sobre as consequências da violência policial contra a população negra e a responsabilidade do Estado Brasileiro perante as atrocidades cometidas diariamente até hoje. Para além da ficção, o filme conecta o espectador com a realidade violenta e injusta do país, pautada no preconceito de toda uma entidade que atua na contramão de seu próprio dever, qual seja o de promover a proteção e segurança de todos os cidadãos.


Não deixe de conferir esta ficção científica brasileira, disponível na Netflix!


 


Por Ana Clara P.S.M.O.

voltar