Instituto de Cinema de SP

Crítica | Bridgerton

A família Bridgerton já era bastante conhecida antes mesmo de sua estreia na Netflix. Vinda de uma série de livros bastante aclamada, criada por Julia Quinn, a história dessa família foi uma das novas apostas do serviço de streaming para o início deste ano.


A obra original conta com oito livros, cada um com o foco em um dos irmãos. Outro fator que gerou expectativa no público foi o nome de Shonda Rhimes, produtora de grandes séries como Grey's Anatomy e Scandal. Nesta primeira temporada, acompanhamos a trajetória de Daphne (Phoebe Dynevor), a mais velha das meninas, enquanto ingressa em sua temporada de apresentação à sociedade para o casamento, um costume   parte da aristocracia inglesa do século XIX.


De início, a narrativa da obra é naturalmente machista, especialmente considerando a época e a visão que as mulheres são ensinadas a ter sobre o casamento como um grande e importante, para não dizer o único, objetivo de vida. Mas, ainda nos primeiros episódios, é possível perceber a intencionalidade desse discurso, que logo fará parte da trama principal como base para uma necessária mudança da personalidade da protagonista.


Além disso, apesar de se passar em uma época e sociedade extremamente patriarcais e com costumes hoje não mais aceitos ou bem vistos, a série é quase inteiramente carregada por suas personagens femininas, todas muito bem construídas e muitas delas questionadoras do status quo. O melhor exemplo é Eloise Bridgerton (Claudia Jessie), irmã mais nova de Daphne, e cujas aspirações envolvem o desenvolvimento de seu intelecto, passando bem longe de um casamento e a vida para a qual foi criada para almejar.


De volta ao arco principal, a busca da protagonista por um bom pretendente se cruza com a necessidade do Duque de Hastings (Regé-Jean Page) de passar despercebido durante seu tempo na cidade, e não demora até que os dois bolem um plano para alcançar seus respectivos objetivos. Assim, Daphne e Simon passam a fingir um cortejo, estabelecendo uma relação que, como em todo bom arco romântico, é claro, desperta sentimentos verdadeiros.


A fofoca, já muito presente, é incitada com as publicações de Lady Whistledown, uma misteriosa escritora que se dedica a entregar, em primeira mão, os rumores mais atuais e importantes da alta sociedade. Estruturalmente, seu papel e relevância na série parecem se dar também como uma forma de condução da informação não apenas para quem faz parte daquela realidade, mas também para o espectador.


Seus típicos e irônicos textos, muito comparados à Gossip Girl pelo público, porém, não têm tanto peso no rumo dos acontecimentos. Pelo contrário, Lady Whistledown chega, inclusive, a ser manipulada indiretamente, deixando evidente que a força motora dos personagens são eles próprios.


Por trás das câmeras, a série chamou atenção por seu casting, que acertadamente trouxe uma maior diversidade para a tela, contribuindo para uma atualização da história, assim como para incluir pluralidade às tramas de época, como é o caso de Bridgerton. Outro elemento que contribui para tornar a série mais próxima da atualidade e surpreende positivamente é a trilha sonora. Composta por versões de músicas atuais, a trilha conta com sucessos como “bad guy” de Billie Eilish e “thank u, next” de Ariana Grande, aproximando e criando uma conexão ainda maior com o público.


Outro ponto que merece destaque são os extravagantes figurinos, parte do espetáculo visual da série, que conta com diversas festas deslumbrantes. Mas claro que não foram apenas os figurinos ou a idealizada história de amor que conquistaram o público. A nova adaptação da Netflix conta com muitas cenas sensuais entre o casal principal, mas, para além do resultado final, é importante aproveitar para ressaltar também suas gravações e como foi a dinâmica no set.


Em uma entrevista, a atriz Phoebe revelou que, apesar dos óbvios constrangimentos, se sentiu à vontade graças à coordenadora de intimidade da produção, Lizzy Talbot. Não é novidade que a indústria audiovisual ainda é dominada por homens e há inúmeros relatos de abusos ou constrangimentos maiores dentro do set em gravações de cenas como as que vemos em Bridgerton. Portanto, ter uma pessoa exercendo essa função específica de coordenadora de intimidade e fazendo a ponte entre atriz e diretor, facilitando a comunicação com o tato e linguagens necessárias, é um grande avanço.


No tocante a atuação, a série deixa um pouco a desejar. Uma exceção a isso é a brilhante performance de Ruby Barker no papel de Marina Thompson. Com muito mais pontos fortes do que fracos, a série já foi renovada para uma próxima temporada, na qual se espera acompanhar a história de Anthony, o mais velho dos irmãos, em sua busca por uma esposa. Aguardamos ansiosamente o início da nova temporada de casamentos da alta sociedade inglesa! 


 


Por Ana Clara P.S.M.O.

voltar