Instituto de Cinema de SP

CRÍTICA | Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia

O que acontece quando uma mulher desafia a ordem? No longa-metragem dirigido por Teona Mitevska, Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia, fica claro. Ela deverá enfrentar a fúria misógina daqueles à sua volta e de todas as instituições que regem a sociedade. Para tanto, é necessária uma protagonista forte. E Petúnia, interpretada por Zorica Nusheva, é mais que isso. Destemida, não hesita nem por um momento, escancara hipocrisias e afirma seu valor.


Todo ano, na Macedônia, é realizado um ritual cristão onde o pároco da cidade lança uma cruz em um rio agitado e congelante. Em seguida, centenas de homens mergulham para alcançá-la, sendo reservado para aquele que a pegar, um ano inteiro de felicidade e prosperidade. Entretanto, um acontecimento inédito leva a pequena cidade onde se passa o filme ao caos: uma mulher tem a ousadia de lançar-se às águas e agarra a cruz, tornando-se a vencedora.


Essa mulher, Petúnia, já com seus mais de 30 anos, desempregada, solteira e gorda, traça seu caminho em busca de provar o seu valor. E o faz, para si mesma. Atitude que ao fim do filme se torna clara e mais do que suficiente. Petúnia e Zorica Nusheva dominam a obra. A câmera que a segue incessantemente coloca o espectador ao seu lado em cada afronta e resistência. Junto a uma direção que não hesita ao afirmar seu posicionamento, acompanhamos cada respiração da protagonista como se fosse nossa. Com diversos close-ups demonstrando o sufocamento de Petúnia, enclausurada pela opressão masculina. Somos, nos momentos de tensão, levados à beira da poltrona, respiramos junto a ela, que nunca cede e obstinadamente aguenta os ataques que sofre até o fim.


O longa se constitui como uma dura crítica às estruturas sociais misóginas da Macedônia, que funciona como um espelho para tantos outros lugares onde o poder e o reconhecimento social é reservado aos homens. Nas palavras de uma outra personagem, a também ousada jornalista Slavica, interpretada por Labina Mitevska, “um país eternamente preso na idade medieval”. A grande influência que a Igreja exerce na sociedade é demarcada desde os primeiros planos do filme, e segue sendo exposta em diversos momentos. O poder representado pelo padre adentra todas as esferas da sociedade, a família de Petúnia, a delegacia de polícia, o posicionamento de quem representa a lei. Todos sempre influenciados pela igreja e seus dogmas.


Sequer é necessário ressaltar o machismo latente, escancarado do começo ao fim da obra. Desde os conselhos bem intencionados da mãe da protagonista, aos extremistas religiosos e violentos, passando por chefes assediadores e regras sociais antiquadas. A todo momento a mulher (as mulheres) está sujeita a ser subjugada simplesmente por existir. Imagine quando ela decide não mais abaixar sua cabeça e resolve que pode sim lançar-se a água e agarrar a cruz que bem entender. Petúnia sofre as consequências de sua escolha, mas apesar de tudo é ela quem sai por cima, revelando a pequenez daqueles que a querem diminuir, ou que exigem que ela volte a ocupar o lugar relegado às mulheres - o que ela não faz.


Que deleite que é assistir Petunia responder ironicamente - e a altura - às pressões psicológicas exercidas pela polícia e pela igreja, confrontando o patriarcado e a fingida laicidade do país. O maior mérito é de Zorica Nusheva, que entrega um excelente trabalho em seu papel. Acompanhada de um roteiro inteligente e forte, fazem de Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia um filme tenso, audacioso e tocante.


 


Por Isabella Thebas

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