Instituto de Cinema de SP

CRÍTICA | Me Chama de Bruna

Não é de hoje que as produções de séries e minisséries brasileiras vêm se destacando no cenário nacional e internacional, seja na tv paga, ou no streaming. É nesse contexto que merece o destaque e a indicação a série # Me Chama de Bruna, produção da TV paga Fox Premium, que chegou com suas 4 temporadas às plataformas de streaming no ano passado.


#MeChamadeBruna acompanha a trajetória de Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, desde o momento em que sai de sua casa e começa a se prostituir, até sua ascensão como a prostituta mais famosa do país. Mas, colocando dessa forma, torna-se passível a interpretação de que se trata de uma visão romantizada e cheia de glamour, de uma personagem que começou do zero e chegou ao seu ápice. Mesmo que essa premissa seja verdadeira, a série faz questão de não romantizar a profissão, e mostrar a realidade dura do mundo da prostituição.


A primeira temporada mostra Raquel, interpretada por Maria Bopp (sim, a Blogueirinha do Fim do Mundo!), deixando sua casa e chegando ao privê onde vai trabalhar. Assim, a menina de 17 anos, assustada, tímida de certa forma, e determinada a conseguir o que quer, deixa de ser Raquel e se torna Bruna. Durante a temporada é nítida essa transição, Bruna vai descobrindo sua sexualidade, seu prazer, seus limites, sua força e coragem para aguentar situações de abuso e violência.  


Bruna tem o protagonismo da série, mas as histórias paralelas dos personagens coadjuvantes se tornam principais por serem tão semelhantes à realidade. Nessa primeira temporada, acompanhamos as histórias das outras garotas do privê, que estão lá por motivos variados, mas ao mesmo tempo conectadas por uma ótica social excludente. Além disso, mostra corrupção policial, chantagem e a violência utilizada para o famoso “acerto de contas”.


Na segunda temporada, Bruna não trabalha mais no privê e atende em seu próprio flat. Sabe-se que a Bruna Surfistinha ficou famosa e conhecida por ter um blog onde falava de suas experiências e dava nota aos seus clientes. A série utiliza muito bem as novas tecnologias, inserindo o celular e as mídias sociais para dar mais visibilidade à personagem, além de claro, utilizar o blog. Nessa temporada vemos Bruna tentando novos caminhos para se tornar famosa e fazer parte da lista VIP de uma boate de luxo, ao mesmo tempo em que precisa lidar com uma solidão proveniente de sua própria história: ela é filha adotiva e sua relação com os pais gera muitos conflitos.


As histórias paralelas nessa temporada envolvem personagens marcantes como Michelle (Wallie Ruy), Georgette (Stella Rabello), Samira (Simone Mazzer) e Jéssica (Nash Laila). Michelle é uma mulher trans que, para não morrer de fome, encontra na prostituição uma forma de sobreviver, já que não conseguia emprego em outro lugar. O mesmo acontece com Georgette, que trabalha como prostituta para sustentar sua filha. E Samira, dona de um bordel disfarçado de bar, personagem que transmite sentimentos conflitantes, e que tem momentos marcantes como a venda de sua neta a um casal, aliciamento de menores e sua posição de cafetina do bordel. Ela é mãe de Jéssica, garota de programa e amiga de Bruna desde a primeira temporada. Jéssica é mãe de Thalita e também apresenta momentos marcantes durante a série, desde sua gravidez precoce de um cliente, a ter a filha vendida por sua mãe enquanto era refém de uma rede de prostituição europeia. 


A terceira temporada mostra Bruna tentando lidar com o passado, após receber a visita de um ex-colega de colégio. Memórias mostram um incidente na escola que gera um grande conflito entre Raquel e seus pais adotivos, um dos principais motivos para ela ter saído de casa. Vemos também Georgette lutando pela guarda da filha, sofrendo preconceitos pela sua profissão. E Samira lidando com a falta de Jéssica que está presa em bordel na Europa, ao mesmo tempo em que tem que lidar com o fanatismo religioso de seus vizinhos. Michelle protagoniza nessa temporada momentos muito marcantes e importantes para a luta lgbt+.


Mulher trans e em um relacionamento com Georgette, se vê obrigada a utilizar roupas masculinas e se apresentar como um homem, para conseguir um emprego em uma escola. Além de passar por um episódio de transfobia e ser atacada por homens na rua que, em um ato covarde, usam da violência para intimidá-la.


A quarta e última temporada, traz Bruna já famosa e rica, frequentando festas fechadas como acompanhante de luxo e tentando uma nova profissão como apresentadora de TV, além de estar em um momento mais família, morando junto com Jéssica e Thalita. O destaque dessa temporada é, como digital influencer nas redes sociais, o quanto Bruna influencia seus seguidores indiretamente.


A resposta vem na personagem Alice (Debora Ozório), uma adolescente que só enxerga uma versão glamourosa da Bruna, sem se importar com os perigos da profissão. Alice acaba sendo aliciada por um desembargador, homem branco, de família, que vive uma vida dupla em que alicia menores, faz chantagem e é corrupto. O desfecho dessa história é impactante e alarmante, por ser tão próximo da realidade. 


Através deste simples resumo, é possível dizer que a série apresenta um roteiro incrível, cheio de conflitos, questões sociais e histórias marcantes que impressionam pela realidade. Mas há outros elementos técnicos que merecem destaque. A montagem das cenas faz com que o espectador se conecte com as emoções da personagem, no início dos episódios vemos cenas não lineares que nos mostram sentimentos da Bruna, mas que só vamos entender conforme o assistimos. Destaque também para a Direção de Arte, tanto no figurino da Bruna que mostra sua ascensão profissional, quanto nos cenários e os contrastes entre o bordel e o privê, com as festas de luxo e a boate, além de mostrar elementos marcantes da cidade de São Paulo. E por fim, o trabalho de preparação de elenco, as atuações são marcantes em todas as temporadas. 


Portanto, é por todos esses motivos que #MeChamadeBruna pode ser considerada uma das melhores séries brasileiras recentes. Temas atuais e de caráter social, e a história de Bruna Surfistinha. Em 2018, a série teve seu reconhecimento internacional e foi indicada em duas categorias (melhor série de TV e melhor atriz para Maria Bopp) ao Prêmio Platino de Cinema Ibero Americano. 


As 4 temporadas de #MeChamadeBruna estão disponíveis aos assinantes Fox Premium e nos serviços de streaming Globoplay e Amazon Prime Video.


 


Por Juliana von Zuben

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