Instituto de Cinema de SP

CRÍTICA | Se a Rua Beale Falasse

Em 2003, Barry Jenkins fez sua estreia como diretor com o curta-metragem My Josephine, realizado como trabalho de conclusão de curso na faculdade. Anos mais tarde, com uma carreira já consolidada, Jenkins alcançou fama mundial ao dirigir a adaptação do livro de Tarell Alvin McCraney, Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016). Com a obra, o cineasta recebeu inúmeras indicações a prêmios ao redor do mundo, vencendo o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, além de receber também a estatueta por Melhor Filme naquele ano.


O filme entrou na história por ter sido o primeiro longa LGBT e 100% negro a vencer o grande prêmio da academia. Em 2017, Barry Jenkins anunciou que dirigiria um novo longa-metragem, desta vez, a produção adaptaria o romance “If Beale Street Could Talk”, de James Baldwin. O roteiro, mais uma vez escrito por Jenkins, estava sendo feito desde 2013 e, após o lançamento e sucesso estrondoso de Moonlight, o diretor conseguiu iniciar a produção do filme, que fez sua estreia nos cinemas no fim de 2018.


O filme conta a história de Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), dois amigos que cresceram juntos no bairro do Harlem. Com o passar do tempo e os anos de convivência, os dois acabam descobrindo sentimentos um pelo outro, e o que era uma inocente amizade dá lugar a uma intensa história de amor, repleta de desafios apresentados pela passagem da juventude para a vida adulta, além das dificuldades causadas pelo racismo diário.


No entanto, quando a vida dos dois começa a tomar seu rumo e entrar nos eixos, Fonny é incriminado injustamente, acusado de ter violentado uma mulher porto-riquenha. Com o amado encarcerado, Tish descobre estar grávida e decide lutar por justiça.  Junto de sua família, ela começa a encarar os desafios e injustiças apresentados, a fim de ter o rapaz ao seu lado para o nascimento do bebê.


Se a Rua Beale Falasse, o terceiro longa dirigido por Barry Jenkins, conta uma história melancólica, alternando os tempos narrativos entre o presente e o passado, a fim de desenvolver e nos situar sobre os sentimentos da protagonista. Os momentos que mostram Tish com Fonny são belos e íntimos, destacando de maneira extremamente sensível a relação entre os dois jovens.


Já as cenas que retratam o presente, são mostradas sempre de maneira dura e realista, condizente com a luta da protagonista para salvar o amado, ao mesmo tempo em que se prepara para dar a luz a seu filho. Diante disso, uma personagem que aparece como sua base, a auxiliando na luta diária contra as inúmeras adversidades, é Sharon (Regina King), a mãe de Tish. Sempre muito lúcida, a personagem é o elemento que dá forças à Tish, tanto na perseverança para livrar o rapaz, quanto na preparação para a chegada do bebê. Regina King dá à personagem a força necessária para roubar a cena, constituindo em Sharon um dos melhores elementos do filme.


O longa-metragem conta com uma produção de encher os olhos (e também os ouvidos). Combinada a belíssima trilha sonora, assinada por Nicholas Britell, a fotografia e figurinos nos envolvem em cores exuberantes, onde os personagens ganham realces e expressão, e onde o cenário ganha vida. Através disso, Barry Jenkins mostra mais uma vez sua força e olhar, buscando dar destaque à humanização dos negros, ao trazer conceitos que envolvem solidariedade, respeito e família, presentes mesmo em condições adversas.


Muito bem ambientado e com excelentes atuações, Se a Rua Beale Falasse é um longa que nos apresenta um lindo romance, que como tantos outros casos na vida de famílias negras, foi interrompido por uma triste e injusta realidade.


Além de receber dezenas de prêmios nas maiores cerimônias de Hollywood, o filme foi indicado a três estatuetas no Oscar de 2019: Atriz Coadjuvante (para Regina King), Trilha Sonora (Nicholas Britell) e roteiro original (Barry Jenkins).


 


Por Pedro Dourado.

voltar