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O vencedor do 47º Festival de Gramado é um filme muito importante para o cinema nacional

Precisamos falar sobre o filme vencedor do Festival de Gramado deste ano. Pacarrete é importante para o cinema brasileiro, não só por ter conquistado alguns prêmios e festivais Brasil afora, mas pela história que representa dentro e fora das telas. 


O filme é a estreia de Allan Deberton na direção de um longa-metragem, e conta uma história real de sua época enquanto criança numa cidadezinha chamada Russas, pertencente ao estado do Ceará. Quando pequeno, Allan acompanhava a cidade chamar uma senhora de louca pela sua forma expansiva de existir no lugar. 


A personagem de sua realidade, Maria Araújo Lima - mais conhecida como Pacarrete - era taxada de “velha louca” por seu jeito espalhafatoso e a forma como expressava a importância da arte para ela e para o mundo. Em sua infância, era a isso que Allan assistia. Quando já estudante de cinema, o diretor descobriu e percebeu a realidade preciosa por trás da história. 


Pacarrete era uma artista que tentava conquistar espaço num lugar onde seu sucesso era apenas como a doida da cidade. Foi assim que Deberton decidiu investir num projeto e tornar a fala de Pacarrete “as pessoas ainda vão ouvir falar sobre mim”, real. A história da personagem é, sobretudo, um caso de resististência. 


Falando mais propriamente sobre o filme: os 200 anos da cidade se aproximam, e Pacarrete que apresentar um número de Ballet que preparou com carinho, como um presente seu para o povo. Mas isso depende da decisão de autoridades responsáveis por montar a programação da festa. 


A atuação de uma personagem tão complexa, que busca passar emoção e ser cômica ao mesmo tempo, com um sentimento denso sobre algo que lhe é extremamente importante, é feita - maravilhosamente - por Marcélia Cartaxo, conhecida por seus papéis em A Hora da Estrela (1985), que lhe rendeu um Urso de Prata no Festival de Berlim; e a prostituta que viveu em Madame Satã (2002). 


No 47ª Festival de Gramado, o filme conquistou 8 prêmios, incluindo melhor longa brasileiro e melhor atriz para Marcélia. Isso é só um reflexo do que Pacarrete representa. É magnífico o que Allan fez em sua estreia na direção de um longa-metragem. O filme tem beleza em questões técnicas, como a direção de arte de Rodrigo Frota e a trilha sonora de Fred Silveira. E não a toa recebeu prêmio pelo desenho de som também em Gramado. 


Pacarrete se apresenta como um filme especial, feito por um diretor com muita sensibilidade para contar uma história que vivenciou, e uma atriz que atua com êxito em voz, corpo e coração. É importante citar também as vitórias que conquistou no FAM - Florianópolis Audiovisual Mercosul, como melhor filme pelo júri popular e oficial. 


O filme representa resistência dentro da tela, quando nos conta a história de uma mulher idosa que vê sua chance de fazer arte se esvair. Mas também representa a resistência quando chega a nosso conhecimento que esse filme não seria possível não fossem as leis de incentivo brasileiras ao audiovisual. 


Em entrevistas diretor e atriz comentam e lamentam o atual momento político que passa o país, como isso tudo influencia e prejudica a cultural nacional, principalmente quando fala-se em políticas públicas voltadas ao audiovisual. O diretor faz questão de salientar que o filme foi feito a partir de editais para novos artistas e novas obras, além de alguns para produções de Norte e Nordeste. Allan diz ter certeza de que hoje não conseguiria contar essa história. 


Um filme que traz uma personagem preocupada com a valorização artística e uma equipe de produção que só reflete isso. É por isso que Pacarrete é tão importante e merece grande reconhecimento. Assista o trailer abaixo para imergir nessa história com a gente!


Por Mariana R. Marques

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