Instituto de Cinema de SP

Mulheres no Cinema: Juliana Rojas

Juliana Rojas é uma cineasta brasileira, nascida em Campinas no ano de 1981. Ela se mudou para São Paulo para estudar e se formou em cinema pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP. Na faculdade, conheceu Marco Dutra, com quem dirigiu em conjunto diversas obras, inclusive o curta O lençol branco (2004), produzido como trabalho de conclusão de curso da faculdade e exibido na mostra Cinéfondation do Festival de Cannes.


Em entrevista ao canal do youtube Cinemascope TV, Juliana afirma que sua paixão por cinema veio do gosto por escrever e até mesmo desenhar histórias em quadrinho, outra forma de narrativa visual. Mas foi apenas assistindo ao especial de 100 anos de cinema na TV, ao se emocionar com o clássico italiano Ladrões de Bicicleta (1948), que percebeu a profundidade de seu gosto por essa arte e decidiu seguir na área.


Em diversos de seus trabalhos, como O lençol branco, Boas Maneiras e Trabalhar Cansa, Rojas desenvolve um olhar crítico sobre o papel da mulher em uma sociedade opressora, sempre buscando romper com estereótipos e funções geralmente associadas à elas, como é o caso da maternidade, questão bastante presente em suas obras. Na mesma entrevista mencionada anteriormente, a diretora afirma que gosta de trabalhar com personagens femininas, pois, nas suas palavras, “quando você olha para uma mulher, você entende a sociedade em que ela está”.


Outra característica de seu trabalho é ambientação na cidade de São Paulo e a ausência da típica trilha sonora de filmes de terror, pois acredita que o caminho para realmente tocar o espectador em um filme de horror é transmitir a sensação de que aquilo que está assistindo poderia acontecer com você. Por isso utiliza locações próximas da realidade do público e a construção da atmosfera do filme com sons ambiente, uma vez que a trilha sonora característica pode denunciar o gênero e fazer com o que o espectador se coloque em uma perspectiva de distanciamento da história.


Uma curiosidade a respeito de suas obras é a relação com as músicas, sendo que muitas delas foi a própria cineasta quem desenvolveu e escreveu as letras, em parceria com o já mencionado Marco Dutra, que estudou piano por muitos anos e fica responsável pelas melodias.


Em geral, é possível perceber que Juliana Rojas possui um estilo de terror bastante único e pautado em um fator humano, através de um olhar subjetivo para aquilo que o personagem está passando e utilizando o gênero do filme como uma metáfora para essa situação.


Além de roteirista e diretora, Juliana atua em outras áreas do audiovisual, com destaque para seu trabalho como montadora nas obras Quando eu era vivo (2014), de Marco Dutra, O que se move (2012), de Caetano Gotardo, Pulsações (2011), de Manoela Ziggiati, e Corpo presente (2009), Marcelo Toledo e Paolo Gregori, telefilme. Ainda, para além de seu trabalho com o horror, Juliana também atuou como roteirista em séries da Netflix como 3%, na qual teve sua primeira experiência em uma sala de roteiro, e uma das mais recentes produções brasileiras do serviço de streaming, Boca a Boca (confira nossa crítica aqui).


Atualmente, Juliana está trabalhando em um novo projeto de longa metragem chamado Cidade Campo, com histórias sobre a migração do campo pra cidade e vice versa, contando com o protagonismo de duas mulheres, e tramas que envolvem tanto relações de trabalho, como relações familiares entre pais e filhos.


Conheça abaixo um pouco mais da filmografia dessa cineasta referência no terror brasileiro!


O lençol branco (2004)


Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o curta foi o projeto de conclusão de curso da dupla na faculdade de Cinema da USP (equivalente hoje ao curso de “Audiovisual” dessa universidade). Baseado em um relato real, a obra narra a história de uma jovem mãe que precisa lidar com a morte de seu bebê. Apesar dos elementos do filme de horror, é bastante focada no afeto entre a mãe e o filho.


O curta estreou em 2005 no Festival de Gramado e foi incluído na mostra Cinéfondation do Festival de Cannes. 


Um ramo (2007)


Com direção e roteiro de Juliana Rojas e Marco Dutra, o curta retrata a descoberta de Clarisse (Helena Albergaria) ao descobrir uma pequena folha crescendo em seu braço direito. Foi um dos 11 curtas selecionados para a primeira mostra inclusiva de cinema da Bahia e recebeu o Prêmio Descoberta Kodak na Semana da Crítica do Festival de Cannes.


Trabalhar cansa (2011)


A ideia do primeiro longa de Rojas, também em parceria com Dutra, surgiu de uma observação da cineasta sobre uma situação cotidiana no bairro de Higienópolis. A partir disso, foram criadas as tramas do filme sob uma perspectiva de diferença de classes sociais e relações de trabalho girando em torno de um primeiro movimento de uma mulher em busca de sua emancipação.


A obra foi selecionada para a mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, além de ter ganhado o Prêmio Especial do Júri no Festival de Paulínia 2011.


Sinfonia da Necrópole (2014)


Neste longa musical, acompanhamos Deodato (Eduardo Gomes), um aprendiz de coveiro pouco animado com o ofício. Porém, a paixão por Jaqueline (Luciana Paes), funcionária do serviço funerário, o impede de pedir demissão, até que estranhos eventos abalam seu estado psicológico.


Sinfonia da Necrópole foi o primeiro longa de Juliana Rojas e participou de diversas mostras e festivais, inclusive ganhando o Prêmio da Crítica de Melhor Longa Brasileiro no Festival de Gramado de 2014 e o prêmio de Melhor Trilha Sonora no 6º Festival de Paulínia. 


As Boas Maneiras (2017)


Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, ambas se envolvem romanticamente, mas Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos.


Dirigido e roteirizado por Rojas e Dutra, a cineasta conta que houve uma preocupação com humanizar o personagem do lobisomem, revelando também que os filmes “Inimigo meu” e “O mensageiro do diabo” serviram de inspiração. Houve, ainda, um trabalho intenso e em conjunto com os diretores de arte e fotografia para achar o equilíbrio e efeito desejados sobre as cores e o olhar de fantasia com a presença da cidade. Rojas também mencionou em uma entrevista que a equipe estudou muitos desenhos da Disney, principalmente a paleta de cores da Bela Adormecida.


Menção Especial do Júri no Festival de Biarritz, Locarno e BAFICI. Melhor filme pelo júri e pela crítica do Festival do Rio e vencedor do Grande Prêmio Brasileiro de Cinema de Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz (Marjorie Estiano), Melhor Efeito Visual, dentre diversos outros reconhecimentos. 


Outras obras de sucesso que valem a pena ser mencionadas são os curtas Vestida (2008), Pra eu dormir tranquilo (2011), O duplo (2012), A passagem do cometa (2018) e As sombras (2009). A maioria dos curtas está disponível em plataformas online como vimeo e youtube, vale a pena conferir!


 


Por Ana Clara P.S.M.O. 

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